Última atualização em março 21st, 2026 às 11:26 pm
A onda de golpes digitais no Brasil ainda está longe de atingir seu pico, impulsionada pelo fácil acesso à inteligência artificial. A avaliação foi feita pelo secretário-geral da Interpol, Valdecy Urquiza, durante evento da Febraban em março de 2026.
Os números são devastadores: cerca de 24 milhões de brasileiros foram vítimas de golpes com Pix entre julho de 2024 e julho de 2025, resultando em prejuízo estimado de R$ 29 bilhões. Em 2025, aproximadamente 28 milhões de brasileiros foram vítimas de golpes via Pix, com pessoas acima de 50 anos representando 53% dos casos.
O Brasil registra mais de 4.600 tentativas de fraude digital por hora – uma tentativa a cada 0,78 segundos. O uso massivo de anúncios pagos se tornou o principal vetor para aplicação de golpes online.
Deepfake: a arma mais perigosa dos criminosos em 2026
Como funciona o golpe com voz sintética
Em 2026, criminosos passaram a usar ferramentas de inteligência artificial capazes de imitar vozes, rostos e até comportamentos com alto nível de realismo. A inteligência artificial clona a voz de um familiar a partir de 15 segundos de áudio público, liga para a vítima simulando emergência e pede Pix imediato.
O processo é assustadoramente simples: AI technology can now clone voices using just three seconds of audio. O programa SV2TTS leva apenas 5 segundos para criar uma simulação aceitável. Em testes, conseguiu enganar o Microsoft Azure bot em 30% dos casos e o WeChat e Amazon Alexa em 63% dos casos.
As histórias usadas pelos golpistas
As histórias mais usadas: sequestro relâmpago (“me sequestraram, paga R$ 5.000 agora”), acidente de carro (“estou no hospital, preciso pagar para ser atendido”), problema com a polícia “fui preso, preciso de fiança”.
Entre os casos mais comuns estão mensagens de áudio que parecem vir de familiares ou chefes pedindo transferências urgentes. Deepfakes de voz e imagem passaram a ser usados para simular chamadas de familiares, gestores de empresas e representantes de instituições. Com isso, cresce o número de casos em que a vítima autoriza transferências ou compartilha informações sensíveis acreditando estar falando com alguém conhecido.
Os 7 golpes mais aplicados atualmente
1. Golpe da falsa central bancária
O criminoso entra em contato por telefone, chat ou aplicativo de mensagem fingindo ser funcionário da instituição financeira. Em alguns cenários, o fraudador já possui parte dos dados do cliente, obtidos em vazamentos ou redes sociais, o que torna a abordagem mais convincente.
2. Golpe do código de autenticação
O golpe do código de autenticação continua muito usado em aplicativos de mensagem. Criminosos induzem a vítima a compartilhar códigos SMS ou tokens bancários.
3. Phishing turbinado com IA
O phishing aparece em diferentes formatos: e-mails que imitam lojas conhecidas, SMS que se passam por bancos, mensagens em redes sociais com promessas de prêmios ou bloqueio de conta. Se antes os golpes eram genéricos e facilmente identificáveis, agora são moldados em segundos para perfis específicos, com dados reais, linguagem natural e narrativas coerentes. Em 2026, o golpe não começa com erro de português. Ele começa com o nome da vítima, sua cidade e uma história que faz sentido para ela.
4. WhatsApp clonado
O criminoso invade ou cria um perfil falso com foto e nome de alguém conhecido da vítima. Em seguida, envia mensagens alegando que trocou de número e pede dinheiro emprestado com urgência.
5. Golpe do Pix errado
O golpista envia uma transferência para a vítima, solicita que uma nova transferência via Pix seja criada para a devolução do dinheiro para a mesma conta de origem e, em seguida, aciona o MED alegando fraude. Na prática, a vítima acaba devolvendo o dinheiro ao criminoso e ainda tem seus próprios recursos bloqueados durante a apuração, sofrendo prejuízo duplo.
6. Falsos investimentos
Ganham força as fraudes ligadas a investimentos, falsos atendentes de bancos e clonagem de cartões em ambientes virtuais.
7. Golpe em plataformas de trabalho remoto e namoro
Em 2026, maior uso de engenharia social em aplicativos de namoro, grupos de compra e venda e plataformas de trabalho remoto. Nessas situações, o golpista cria um perfil aparentemente confiável, desenvolve contato frequente e, depois, passa a solicitar transferências, pagamentos adiantados ou dados bancários. A pressa em fechar negócios ou ajudar alguém supostamente em situação de emergência costuma ser usada como gatilho emocional[.
Operação internacional prende quase 100 golpistas
A Interpol divulgou os resultados da Operação Synergia III, uma ação coordenada que mobilizou forças de segurança de 72 países durante seis meses. Ao todo, 94 pessoas foram presas por envolvimento em crimes como phishing, golpes românticos e fraudes com cartão de crédito. Realizada entre julho de 2025 e janeiro de 2026.
Autoridades conseguiram derrubar mais de 45 mil endereços IP associados à hospedagem de páginas fraudulentas. O grupo Dragonforce, da Malásia, anunciou o roubo de dados da Fundação Getulio Vargas (FGV). A organização recruta afiliados globalmente, fornece ferramentas para invasões e utiliza o conhecimento local dos participantes.
Como se proteger: técnicas práticas que funcionam
Contra deepfakes de voz
Palavra-código familiar: A palavra-código é a única proteção que funciona contra deepfake de qualquer qualidade. O golpista pode clonar voz e rosto, mas não consegue adivinhar uma informação que existe apenas entre vocês.
Desligar e ligar de volta: Combine a palavra-código com a regra de desligar e ligar de volta para o número real do familiar.
Atenção aos pedidos urgentes: Sempre desconfie de pedidos urgentes de dinheiro, especialmente se feitos por telefone e com uma história que parece fora do comum.
Proteção geral contra golpes digitais
Verificação dupla: Desconfiar de comunicações inesperadas que pedem dados, códigos ou pagamentos, mesmo quando parecem de empresas conhecidas.
Autenticação em duas etapas: Habilitar o recurso em e-mails, redes sociais, mensageiros e plataformas financeiras para dificultar o acesso de terceiros.
Sites oficiais apenas: Acessar bancos, lojas e órgãos públicos sempre digitando o endereço no navegador, em vez de clicar em links recebidos por mensagem.
Desconfie de anúncios pagos: O uso massivo de anúncios pagos se tornou o principal vetor para aplicação de golpes online.
MED: novo sistema de recuperação de valores
O Mecanismo Especial de Devolução foi redesenhado e virou o principal instrumento para tratar transações com indício de golpe via Pix. A nova versão permite acompanhar o caminho do dinheiro mesmo quando ele passa por várias contas em sequência.
A funcionalidade se tornará obrigatória em fevereiro de 2026, com o objetivo de desestimular fraudes e dificultar o uso de contas laranja.
Se você foi vítima, aja imediatamente:
- Conteste o Pix na hora: Entre no aplicativo do banco o quanto antes, encontre o extrato PIX e acione o MED, que também pode estar sinalizado como “contestar PIX”
- Registre boletim de ocorrência: Etapa fundamental para apoiar a investigação e o processo de análise do caso
- Aguarde análise: As instituições analisam a fraude em até sete dias. Se o golpe for confirmado, a devolução pode ocorrer em até 96 horas, desde que ainda haja saldo disponível
O futuro dos golpes: inteligência artificial como multiplicador de riscos
A tecnologia tem permitido que organizações criminosas ampliem sua atuação. A adoção da IA pelas organizações criminosas ajuda na execução de atividades para as quais não havia habilidade, permite que elas operem em uma escala global jamais vista.
A tendência é que criminosos continuem aperfeiçoando métodos, inclusive com uso de inteligência artificial para criar mensagens, áudios e vídeos falsos mais convincentes. A Interpol alerta que, em 2026, o cibercrime se tornou mais sofisticado e destrutivo do que em qualquer outro momento anterior.
A colaboração entre bancos, polícia e tecnologia será crucial. Desde 2009, as principais instituições financeiras do país compartilham informações sobre fraudes com as autoridades. Essa colaboração também contribui para o aprimoramento das tecnologias de detecção de atividades ilícitas.

Com olhar atento às tendências de IA, segurança digital e ao mercado de dispositivos móveis, Jhonny Almeida transforma temas complexos em conteúdos claros e práticos. É responsável pela curadoria e pela precisão técnica dos artigos do Em Dia News, garantindo ao leitor informações sempre atualizadas e relevantes.
